Na Região Seridó do Rio Grande do Norte, além da cultura e culinária, uma coisa chamou a atenção dos cientistas, o alto índice de câncer colorretal, o segundo que mais mata no Brasil. Os dados foram coletados por pesquisadores que, ainda em 2019, realizaram um estudo que foi publicado em revistas internacionais. Ao todo, 12 famílias e um total de 150 participantes foram monitorados entre os meses de julho e novembro de 2019. “O Seridó é um exemplo claro de como história, geografia e genética podem moldar o perfil de saúde de uma população e isso é a ciência da epidemiologia. No Seridó, no século XVII e XVIII, a maioria das famílias que tomavam de conta daquela região era de origem europeia, sobretudo portugueses ligados à pecuária extensiva e acabaram fazendo posse de muita terra por lá. Esses grupos ficaram nesse território de difícil acesso, com seca recorrente, de difícil mobilidade – as pessoas nasciam e viviam na mesma região – e acabavam formando pequenos núcleos de famílias extremamente interligadas e que existem até hoje”, explica o médico Edilmar Moura, diretor de Ensino, Pesquisa e Inovação da Liga Contra o Câncer.
Com o povoamento em fase inicial numa região de difícil acesso, tornou-se comum a relação entre parentes de uma mesma família, o que favoreceu a mutação de um gene, o MUTYH, que é conhecido no mundo todo por facilitar o desenvolvimento do câncer colorretal. “A frequência com que ele aparecia com mutações foi a maior já descrita até 2019 no mundo. Nesse contexto, a consanguinidade, que é a possibilidade de casar e ter filhos com familiares próximos, de primeira, segunda e terceira geração, se tornou muito frequente. Não era, necessariamente, um costume deliberado das pessoas, mas resultado de toda essa questão geográfica, escassez de parceiro, muita preservação de patrimônio familiar e questão de alianças familiares para manter tudo isso”, esclarece Moura.
“Em poucas gerações, duas ou três, boa parte da população acabou tendo algum tipo de ancestralidade comum. Do ponto de vista genético, toda vez que isso acontece, ocorre algum risco de ter o que se chama de ‘efeito fundador’.